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20 de fevereiro de 2019
 
 Actividade Cinegética

O uso de venenos em Portugal está intimamente ligado à actividade cinegética. Apesar de não ser uma prática exclusiva deste sector, um grande número de casos de envenenamento detectados estão relacionados com a Caça. A principal razão e aquela que tem consequências mais graves para algumas espécies silvestres é o controlo ilegal de predadores que é levado a cabo por um grande número de zonas de caça. A ignorância e falta de formação no que respeita à biologia das espécies silvestres, tanto predadoras como presas (cinegéticas); o desrespeito total pela Natureza e pela Biodiversidade; a necessidade de rentabilizar a Caça quando se recorrem a práticas cinegéticas insustentáveis e que apenas visam o lucro fácil e imediato (largadas, repovoamentos incorrectos); a falta de fiscalização séria e o fácil acesso a produtos que podem ser usados como veneno têm contribuído para que o controlo ilegal de predadores seja uma prática corrente e bem conhecida e admitida por todas as pessoas que estão envolvidas com o sector da Caça. A total impunidade, a falta de preocupação e/ou formação das autoridades para lidar com os casos que são detectados e notificados, e pior ainda, as insuficiências da legislação actual têm impedido uma mudança de atitude, mentalidade e de práticas de gestão cinegética no seio dos caçadores.

Sardinha com Estricnina utilizada como isco envenenado numa Zona de Caça em Vila Pouca de Aguiar, 8 de Fevereiro de 2005
Foto: João Rodrigues

Para além do controlo ilegal de predadores com veneno, existem os conflitos entre zonas de Caça, ou entre as populações locais e os caçadores. O ordenamento cinegético (ou a falta dele e/ou a forma como é realizado) têm estado na origem destes conflitos, mas também nestes casos, é a total impunidade que permite a seu perpetuação. Apesar dos próprios caçadores serem os principais lesados nestes casos, pois perdem muitos dos seus melhores cães, a passividade e a impunidade têm gerado um conformismo e uma aceitação quase generalizada do veneno por parte dos responsáveis pelo sector da Caça. A existência de veneno é portanto, um dado adquirido em muitas zonas, e pouco ou nada é feito para resolver ou minimizar o problema. Estes casos conduzem por vezes a situações caricatas, sendo um exemplo o facto de em algumas regiões do país os caçadores já irem para o campo preparados para a possibilidade de os seus cães encontrarem veneno. Um dos melhores exemplos é a posse de Apomorfina por parte de um grande número de caçadores. Este fármaco derivado da Morfina, cuja venda nem é frequente em Portugal, é utilizado para provocar o vómito imediato aos animais, sendo o recurso de eleição por parte de muitos caçadores no momento em que detectam que um dos seus cães ingeriu um isco envenenado. Outro dado relevante é a utilização de açaimes para os cães não ingerirem veneno, uma prática que pode ser facilmente constatada em muitas zonas de caça, em particular na região de Entre Douro e Minho.

Diferentes tipos de açaimes utilizados na região do Minho para que os cães de caça não ingiram iscos envenenados, Outubro de 2003
Foto: Ricardo Brandão 

Outro problema frequentemente relacionado com a actividade cinegética é o abandono de cães no final das épocas de Caça. Pelas mais diversas razões, estes animais são deixados de forma deliberada nos montes e não há mecanismos nem preocupação das autoridades responsáveis para proceder à recolha destes animais. Estes cães abandonados tornam-se predadores das espécies cinegéticas causando tanto ou maior impacte negativo sobre as mesmas do que os predadores silvestres.

Uma medida importante e que certamente terá efeitos positivos na resolução desta situação é a obrigatoriedade da marcação dos cães usados na Caça, com sistemas de identificação electrónica, mas só o tempo dirá se será suficiente. Entretanto, muitas zonas de Caça continuam a recorrer ao uso massivo de veneno, usando até o termo "desinfecção", para controlar estes animais no final das épocas de Caça. É importante realçar que a questão dos cães abandonados não passa apenas pelo seu abate, mas sim, e principalmente por um muito maior esforço de consciencialização dos caçadores para um relacionamento muito mais digno com os seus animais, o que contribuirá para uma outra visão do abandono e maus-tratos dos cães que é tão frequente.

Cão de Caça envenenado em Arcos de Valdevez, Dezembro de 1995
Foto: Francisco Álvares

Como conclusão, é importante realçar que a penalização e o desincentivo para o uso de venenos passa predominantemente por uma outra abordagem ao problema por parte dos responsáveis máximos pela Caça em Portugal. É necessária uma posição pública veementemente contrária a esta prática, que seja visível e divulgada nos momentos e locais devidos, e acompanhada de maior fiscalização e controlo, medidas correctas de gestão da caça e do ordenamento, e um muito maior esforço para a formação e educação ambiental dos caçadores que contribua para o conhecimento e respeito pelos ecossistemas.

As recentes adesões de duas importantes entidades do sector, a CNCP e ANCP, a quem certamente se seguirão outras, reflectem os bons passos que o sector cinegético começa a dar em direcção a uma maior compatibilização da actividade com a Conservação dos Recursos Naturais. Esta adesão dos Caçadores ao Antídoto já ocorreu há alguns anos em Espanha, e o seu envolvimento na luta contra o uso de venenos é cada vez maior.

Sítio recomendado: Oficina Nacional de la Caza

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