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14 de Dezembro de 2017
 
 Uso Ilegal de Venenos

O uso ilegal de venenos é uma prática frequente em todo o mundo e tem sido apontado como uma causa importante de extinções ou diminuições drásticas de populações de animais selvagens, nomeadamente de aves necrófagas (Wiemeyer et al., 1988).

Em Portugal, as referências ao uso de venenos remontam pelo menos ao século XIX e desde essa época que há relatos de vários casos de mortalidade intencional de animais e até mesmo acidentalmente de pessoas (Grande del Brio, 1984). O extermínio de populações de animais silvestres devido a esta prática foi em tempos incentivada pelas próprias autoridades e conduziu à extinção de inúmeras espécies em diversas regiões do país (Grande del Brio, 1984; Reis Júnior, 1934). Esses incentivos e o consequente reconhecimento público pelo sucesso dos envenenamentos originaram alguma documentação histórica da mortalidade de espécies como o Lobo Ibérico (Álvares, 2003) e breves referências à aplicação premeditada de venenos para eliminar a Águia-Real (Dias, 1948). Em relação a outras espécies, principalmente de hábitos necrófagos, a sua diminuição e extinção em diferentes regiões de Portugal terá sido “silenciosa” e consequência das tentativas de eliminar outras espécies pelo que a sua documentação é praticamente inexistente (Reis Júnior, 1934).



Abutre-preto (Aegypius monachus), uma das espécies mais afectadas pelo uso ilegal de iscos com veneno, actualmente extinta como reprodutora em Portugal.
Foto: Artur Oliveira

Os venenos são utilizados por várias razões, sendo uma das mais graves e importantes, a tentativa de controlo dos predadores das espécies cinegéticas e pecuárias. Estas práticas são levadas a cabo por caçadores e gestores de zonas de caça, ou por criadores de gado, respectivamente. As espécies-alvo são principalmente cães assilvestrados, Lobos e mamíferos de pequeno e médio porte (Ribeiro 1996, Álvares 2003). Os conflitos entre caçadores, ou entre estes e as populações locais também têm estado na origem de inúmeros casos de envenenamento. O uso de venenos para controlo de roedores e aves silvestres consideradas prejudiciais às actividades agrícolas também é muito frequente e o seu impacte na fauna silvestre não tem sido estudado devidamente.

O impacte desta prática sobre as espécies silvestres ainda é pouco conhecido, e por isso subestimado no nosso país. No entanto, os estudos e trabalhos realizados em vários países permitem concluir que determinadas espécies são particularmente susceptíveis, como é o caso das aves de presa, principalmente as de hábitos necrófagos. Estas espécies são susceptíveis a envenenamento primário quando ingerem iscos envenenados, mas também secundário quando se alimentam de aves e mamíferos envenenados acidental ou intencionalmente (Balcomb, 1983).

A situação relativa ao uso de venenos é muito preocupante pois embora não seja verdade, há uma sensação generalizada entre quem o pratica de que é um método eficaz no controlo de predadores, o que associado à facilidade com que os venenos podem ser adquiridos e aplicados, o número de indivíduos que podem eliminar com um esforço mínimo por parte de quem o aplica (Álvares, 2003) e o facto de ser um método não selectivo e que em alguns casos acaba por afectar os exemplares em melhores condições físicas e com maior potencial reprodutor, afectando a dinâmica populacional das espécies (Hernandéz, 2003), tornam este problema numa das maiores ameaças actuais à conservação de algumas espécies silvestres.

 

 

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