Programa Antídoto Portugal » Tóxicos e Fauna » Insecticidas
26 de abril de 2019
 
 Insecticidas

O grupo dos insecticidas é o que tem efeitos melhor documentados, e divide-se em 4 sub-grupos principais: Organoclorados, Organofosforados, Carbamatos e Piretróides (os únicos relativamente pouco tóxicos para os vertebrados).

Estas substâncias são utilizadas na constituição de iscos que se usam para envenenar vertebrados, provocando a morte dos animais que os ingerem. Além disso, o seu uso legal também tem efeitos sobre a fauna principalmente nas espécies de topo da cadeia alimentar, quando estas se alimentam de insectos e pequenos vertebrados que estiveram em contacto com o tóxico, o que representa um grande problema de conservação da Natureza.


Organoclorados

Este grupo de tóxicos inclui os primeiros insecticidas que foram utilizados em larga escala a nível mundial, e que são os mais resistentes à degradação nos organismos animais e no Ambiente. Os mais célebres deste grupo são o DDT e os seus derivados, responsáveis por problemas reprodutivos que ameaçaram seriamente várias espécies de aves de presa como a Águia-pesqueira (Pandion haliaetus), o Falcão-peregrino (Falco peregrinus) ou a emblemática Águia-calva americana (Haliaeetus leucocephalus), entre outras. Os efeitos na fauna selvagem e na Saúde Humana acabaram por forçar o controlo rigoroso destes tóxicos em vários países do Hemisfério Norte, mas continuam a ser comercializados e aplicados massivamente em países em vias de desenvolvimento, para diversos fins, entre os quais na luta contra os artrópodes vectores da Malária.

Estes tóxicos são de relativa baixa toxicidade mas de elevada persistência no meio ambiente, e vários estudos comprovam que muitos animais, nomeadamente as aves contêm elevadas concentrações de organoclorados nos seus organismos. As restrições que foram impostas a estes tóxicos levaram à sua progressiva substituição por outros grupos, nomeadamente Organofosforados e Carbamatos, pesticidas inibidores da enzima acetilcolinesterase, com menor persistência no meio ambiente, mas de toxicidade muito mais aguda para mamíferos e especialmente, para as aves.


Organofosforados

Várias substâncias deste grupo de tóxico têm sido responsáveis pela morte de animais e pessoas em todo o mundo. Em Portugal, são ainda frequentes os envenenamentos com organofosforados altamente tóxicos já proibidos, e que supostamente não deveriam ser acessíveis, como o Paratião-metilo (E-605 Forte) ou com outros que incompreensivelmente ainda são legalizados como o Azinfos-metilo (Gusathion M-25), que algumas grande empresas já deixaram de comercializar pelo seu perfil “ecotoxicológico desfavorável”. A falta de controlo efectivo sobre a comercialização deste tipo de produtos altamente tóxicos, legais e ilegais, é uma das mais sérias ameaças à conservação da Biodiversidade em Portugal.

No resto do mundo, há vários casos que, pela mortalidade registada, merecem reflexão como o que ocorreu na Argentina entre 1995 e 1996, em que depois da aplicação do organofosforado Monocrotofos para eliminação de gafanhotos, foram encontrados mortos mais de 6.000 indivíduos da espécie Buteo swainsoni, uma ave de presa de tamanho médio. As estimativas para a mortalidade real que terá ocorrido neste caso apontaram para mais de 20.000 mortos, aproximadamente um 5% da população total da espécie naquela época (Woodbridge et al. 1995; Goldstein et al. 1996; Goldstein et al. 1999). Este episódio é apenas um exemplo de como o uso de pesticidas de forma legal e supostamente controlada raramente considera de forma séria os possíveis efeitos colaterais que podem ocorrer.

De facto, ao verificarmos as instruções que são exibidas nas embalagens de alguns dos produtos mais tóxicos, actualmente em circulação em Portugal, verificamos que há recomendações relativas à fauna, em particular às espécies silvestres, que nunca poderão ser respeitadas, como por exemplo, o afastamento dos campos tratados durante vários dias. Veja-se por exemplo o número de dias que se recomenda para manter os animais afastados após uma aplicação “correcta” do organofosforado Azinfos-metilo (14) ou do carbamato Carbofurão (42)!


Carbamatos

Dentro deste grupo de tóxicos, há dois que pelo seu historial negativo no que diz respeito à mortalidade de fauna silvestre que provocam, merecem destaque.

O Carbofurão, comercializado sob a forma granular e apresentando elevadas concentrações de tóxico, foi apontado pela Environmental Protection Agency como o responsável pela morte de mais de 2 milhões de aves por ano só nos Estados Unidos. As espécies afectadas são maioritariamente de passeriformes que confundem os grânulos de tóxico com sementes ou outro alimento, ingerindo-as e morrendo, e que depois são consumidos por outros animais que podem também acabar por morrer (Porter 1993, Balcomb 1993, Mineau et al. 1999).
Além dos efeitos relacionados com o uso legal, não devemos esquecer o uso ilegal de Carbofurão.



Carbofurão em forma granular que estava a ser utilizado em iscos envenenados, Catalunha, 2003
Foto: Ricardo Brandão

O outro tóxico com grande impacte é o Aldicarbe, que em conjunto com o Carbofurão, têm sido os tóxicos mais detectados em iscos e animais envenenados em Espanha na última década, sendo responsáveis pela morte de milhares de indivíduos.


Toxicologia Clínica:
- Envenenamento com Insecticidas e Acaricidas -

Artigos recomendados:
Fleischli MA et al. 2004. Avian Mortality Events in the United States Caused by Anticholinesterase Pesticides: A Retrospective Summary of National Wildlife Health Center Records from 1980 to 2000 in Archives of Environmental Contamination and Toxicology 46, pp. 542-550.

 

 

 

 

 

webmaster@antidoto-portugal.org

Copyright © 2005 Programa Antídoto-Portugal